Era 31 de junho de 1983. Saía da Venus Veículos, concessionária Volkswagen da zona norte de São Paulo, mais uma unidade do Gol.

O comprador, José Casetta, adquirira o carro por 23,5 mil cruzeiros, para substituir um velho Fusca usado por ele como táxi desde 72. Ou seja, aquele Gol 1600 branco, versão S, serviria como um mero instrumento de trabalho.

Quer ter acesso a todos os conteúdos exclusivos de Quatro Rodas? Clique aqui e assine com 64% de desconto.

Passados 37 anos, o veículo transpôs sobremaneira a missão para a qual foi adquirido e se tornou o xodó da família Casetta, a quem pertence até os dias atuais. E estando mais conservado do que muito carro zero-quilômetro.

Continua após a publicidade

Seu José deixou o hatchback como herança e presente para o neto, Daniel Casetta Cintra, que demonstra incrível afeto pelo carro e o trata quase como a um filho.

“Meu avô sempre teve uma vida humilde e aquele carro foi o único bem que comprou”, diz o analista de TI de 37 anos, que desde a infância mora em São José dos Campos (SP), mas rotineiramente ia à capital visitar o avô e, claro, o Gol.

A relação íntima de Daniel com o veículo começou no nascimento. Afinal, ele chegou ao mundo em 10 de julho de 83, apenas um mês e 10 dias após o carro ter sido retirado da loja. E foi o Gol que o transportou junto da mãe, Roseli, da maternidade para casa.

“Cresci com meu avô envolvido nessa história. Ele falava que ia dar uma volta no carro para ver se precisava de alguma manutenção e eu ia com ele. Ele lavava o carro e eu pedia para lavar para ele. Então tenho muitas memórias. Lembro até do cheiro”, conta.

A parte do cheiro merece uma explanação à parte: enquanto taxista, seu José Casetta escondia uma caixa de sapatos com sabonetes no interior do veículo para mantê-lo cheiroso e, assim, impressionar os clientes. Isso quando não borrifava na cabine o perfume da própria esposa, dona Gloria.

Continua após a publicidade

“Quando andávamos com o carro, muitas pessoas viam que era táxi e acenavam para iniciar uma corrida. Aí minha vó tinha que dizer que aquele táxi não estava disponível”, rememora.

Apesar de pertencer à versão S, o Golzinho tem suas peculiaridades: tal qual um Fusca, o banco dianteiro é mais curto e os carpetes não forram o assoalho inteiro. Quebra-sol e retrovisor externo só existem do lado do motorista. Não há capa no freio de mão nem saídas de ar laterais, e os cintos são todos de duas pontas.

Todas soluções para deixá-lo mais acessível a frotistas, incluindo taxistas como seu José. Ah: e enquanto o Golzinho serviu como táxi, o assento dianteiro direito foi removido para facilitar o acesso dos passageiros à fileira traseira. Depois, o item foi recolocado.

O taxímetro foi instalado, poucos dias após a compra, por um vizinho que morava duas ruas acima. E foi este mesmo amigo que, 33 anos mais tarde, em 2015, consertou o velocímetro que insistia em dar problema.

Continua após a publicidade

E se o carro serviu a seu José até 1994 como táxi em um ponto da Pompeia, zona oeste de São Paulo, com Daniel a relação ficou mais próxima no começo dos anos 2000. Foi nessa época que ele tirou a CNH e começou a dirigir o Golzinho junto do avô.

Led de roda se tornou tendências para os entusiastas automotivo para terem um novo visual, utilizando o led de roda seu passeio fica mais legal e animado, as luzes coloridas atraem a atenção de muitos espectadores. Clique aqui e saiba mais

Mas este não foi o único motivo. “Nessa época, meu avô ficou bem doente e parou de mexer no carro, que ficou parado na garagem embolorando. Aí eu comprei uma capa para protegê-lo e tentava motivar meu avô a mexer nele pelo menos de vez em quando”, narra.

Também foi com as explicações e supervisões de seu José que Daniel aprendeu a detectar (e resolver) questões mecânicas do veículo, em especial ligadas ao motor refrigerado a ar e carburado. “Ele conhecia aquele carro como a palma da mão”, garante.

No fim de 2009, com o avô já aposentado, Daniel passou a viajar eventualmente com o hatch entre São Paulo e São José dos Campos, a fim de colocá-lo em movimento e resolver qualquer pendência mecânica.

Mas foi em julho do ano seguinte que, em meio à tristeza de ver o pai lutando contra um câncer (e praticamente perdendo a batalha), Daniel ganhou do avô o melhor presente de aniversário da vida: o Gol.

Continua após a publicidade

“Ele me disse: ‘Eu sei que não tem muito o que comemorar neste momento, mas conversei com sua avó e a gente vai te dar o carro’. Aquilo deu até uma melhorada no ânimo naquele momento tão difícil para a família”, relembra.

Quando Daniel se tornou dono do Gol, o carro registrava quase 83.000 km no hodômetro. Passados dez anos, agora está com pouco mais de 86.000 km. “Evito usá-lo para preservá-lo ao máximo. Ele já não vê chuva há uns bons anos”, brinca.

Atualmente, quando está na garagem da casa de Daniel, o Gol recebe proteção em três camadas: primeiro, duas placas de PVC nas laterais, para “proteger contra portadas”, nas palavras do próprio dono; no meio, uma capa de pano feita por sua mãe; por fim, aquela capa plástica que o analista comprou para o carro lá em 2001.

Em 2013, quando o veículo completou 30 anos, Daniel providenciou a inclusão das placas pretas, com direito a sessão de fotos entre avô e neto. Seu José ficou com uma das antigas chapas cinzas e a pendurou na parede do quarto como recordação.

“Difícil achar algo no carro que não seja original. Uma das únicas coisas que meu avô colocou por conta foram uns tapetes para cobrir os pontos do assoalho que o carpete deixava expostos”, assegura.

Continua após a publicidade

O carinho é tamanho que, em 2012, quando Daniel se casou, foi a bordo do Gol que sua noiva chegou à igreja. Não apenas isso: uma miniatura em 1:18 do carro compôs o enfeite do bolo do casamento junto aos bonequinhos dos noivos. É claro que a miniatura está guardada por ele até hoje.

Seu José Casetta faleceu em junho do ano passado, aos 93 anos, mas nem precisamos dizer que, através do Gol, deixou um arcabouço de memórias afetivas à família e, em especial, a Daniel.

Que não pretende se desfazer do Gol de jeito nenhum. “Sem chance de vendê-lo. Já tive ofertas muito boas, mas não quis nem pensar, por causa do amor que tenho pelo carro”, descarta.

O analista de TI e a esposa estão tentando engravidar do(a) primeiro(a) filho (a) este ano. E Daniel já sabe como o Gol fará parte desse próximo capítulo da família: “Assim como eu, meu filho ou filha vai sair da maternidade nesse carro”, planeja.

E assim os Casetta vão garantindo mais bons anos de vida e histórias a este Gol tão familiar.

Não pode ir à banca comprar, mas não quer perder os conteúdos exclusivos da nova edição de quatro rodas? clique aqui e tenha o acesso digital.

Continua após a publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here