Ninguém nunca duvidou dos efeitos devastadores da atual crise introduzida no País pela pandemia de coronavírus, que de um dia para outro derrubou a zero (ou quase isso) o faturamento da maioria das empresas do setor automotivo. Além de sufocar expectativas de crescimento, como efeito colateral a Covid-19 também embaçou a visão, turvando as projeções, pois ninguém conseguia ver longe o suficiente para estimar quanto a economia poderia afundar. Passados quatro meses de recessão, já é possível enxergar um pouco além de hoje ou da semana, mas quanto mais se vê futuro, pior ele fica.

Há um mês a associação dos fabricantes, Anfavea, fez sua primeira projeção pós-pandemia para 2020, divulgando a preocupante estimativa de retração sobre 2019 de 40% nas vendas de veículos leves e pesados no País, o que significa 1,67 milhão de unidades, resultado que não se via tão ruim desde 2004.

O salto nas vendas de junho, que pela primeira vez superaram os 100 mil veículos desde a chegada da pandemia ao País (foram 133 mil unidades emplacadas, em alta de 113% sobre maio), ainda é insuficiente para alterar a perspectiva futura muito ruim, que está associada a uma economia que parou de respirar, com previsão de PIB negativo em mais de 7% este ano, aumento galopante do desemprego que tende a atingir mais de 20 milhões de pessoas, óbvia falta de confiança para consumir e aversão dos bancos ao risco aumentado, o que dificulta a concessão de crédito tanto para empresas como para consumidores.

Mas o pior não é só este retrato apavorante dos próximos seis meses. A mesma Anfavea, apenas um mês depois de projetar a queda de 40% das vendas domésticas de veículos, neste início de julho traçou uma linha prospectiva de recuperação da economia, baseada em outras graves crises econômicas de passados longínquos e recentes. E o que a entidade enxerga, na melhor das hipóteses, é o crescimento médio de 11% a partir de 2021, o que fará o mercado brasileiro regressar ao mesmo nível de 2019 (2,8 milhões de unidades) – que já não foi tão bom – apenas em 2025.

Ou seja, o melhor cenário é de meia década perdida à frente, com tamanho de mercado que não é suficiente para sustentar o tamanho da indústria automotiva nacional, capaz de produzir 4,5 milhões de veículos/ano. A Anfavea também fez em julho as primeiras projeções pós-pandemia para exportação e produção, calculando tombos ainda maiores. Como as vendas externas são dependentes de países tão ou mais em crise quanto o Brasil, este ano os negócios devem recuar 53%, para minguados 200 mil veículos exportados. Com isso e consumo interno sem reação, a perspectiva é de produzir 1,63 milhão de unidades em 2020, em contração de 45% sobre 2019. E assim foi desenhado o apocalipse.

Um pouco mais otimistas, os concessionários reunidos na Fenabrave também fizeram suas primeiras projeções pós-pandemia, estimando queda de 36,6% nas vendas de veículos leves e pesados em 2020, o que significará 1,77 milhão de unidades emplacadas, 10 mil a mais do que prevê a Anfavea. No entanto, pouco importa saber quem está mais certo ou mais errado, pois ambas as projeções são de desastre.

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Os efeitos de desempenho tão abaixo das necessidades e retomada muito lenta dos negócios se faz sentir em gente e produtos. Concessionários e fornecedores de componentes já tinham iniciado em abril um duro ciclo de fechamentos e demissões, que agora chega também às montadoras.

Entre maio e junho foram fechados cerca de mil postos de trabalho entre os fabricantes de veículos e a tendência é de mais cortes em grande escala a partir do fim do ano, quando devem se esgotar os acordos de redução de jornada e salários, suspensão temporária dos contratos de trabalho e os período obrigatórios de estabilidade de emprego. Empresários do setor já perderam o medo de confirmar que, se o mercado não reage, não há como manter o mesmo quadro de funcionários.

Pelo lado dos produtos, também parece certo a prorrogação de prazos para o cumprimento de metas de eficiência energética e adoção de sistemas de segurança previstos no Rota 2030 a partir de 2022, bem como o adiamento (fala-se já em três anos) das próximas fases do Proconve, o programa brasileiro de controle de emissões veiculares, que prevê limites mais apertados a partir de 2023. Sem revelar prazos, a Anfavea admite que está negociando esses adiamentos com o governo, o que deve resultar em atraso tecnológico dos veículos produzidos no País. A justificativa é que a indústria não tem mais recursos para investir e nem tempo suficiente para realizar todos os testes e ensaios para validar as novas tecnologias.

Parece certo, portanto, que a crise trará efeitos deletérios prolongados à indústria e à sociedade por muitos anos à frente, seja pelo desemprego, recessão econômica ou atraso tecnológico. Ao que tudo indica até agora, não há esforço ou iniciativas suficientes do governo para conter o caos já desenhado – ao contrário do que acontece em países onde a crise também é forte, mas está sendo aproveitada para mudar rumos e desenvolver a economia verde.

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